sábado, 13 de outubro de 2012

II



Voar sempre esteve nos sonhos de Paulina. Quando era bem criança, sonhou com seu primeiro voo. Eram em tons de cinza claro, escuro, preto e branco, mas ela insistia em acrescentar outras cores às imagens, indo contra afirmação que sonhamos em preto, branco e cinza. Desde então, o mesmo sonho a visitava sempre – Ela se via voando alto, plainando sobre o bairro onde morava e assistia a vida das pessoas, sentia-se onipresente e onipotente.
Em uma dessas viagens aéreas, viu um senhor se esforçando para colocar um alto falante em cima de uma árvore. Ele era uma espécie arauto das coisas divinas e a menina se compadeceu, tentou descer para ajuda-lo, mas não conseguia aterrissar. E percebeu que voar tinha seu preço e não havia como interferir nas cenas que assistia do alto do seu privilegio de ser quase Deus. 

Simone Fernandes.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Visíveis



Não há nada que me agrade mais do que conhecer pessoas. Eu consigo passar horas olhando alguém, reparando seus gestos, sons e expressões involuntárias.

E por isso, percebo coisas que ainda me atemorizam quanto ser sociável que aspira ter um tantinho de cultura e educação. E esse meu pasmo, pode parecer infantil, piegas ou romântico. Mas, estar em pleno século XXI e constatar que muitas pessoas ainda vivem um comportamento “pequeno- burguês” de séculos passados, ostentando atitudes que classificam de classe, ignorando ou exaltando outras de acordo com seu status, leia-se, poder econômico. Negando gentilezas que gerariam um mundo melhor e eu não estou falando de uma utópica ideia de igualdade social, mas de um sentimento de humanidade. Apavora-me!

Há pouco tempo fiz uma viagem e o primeiro abraço que recebi foi do taxista que foi me buscar no aeroporto e gentilmente me levou pelo percurso mais bonito da cidade, sem cobrar nada mais do que já tínhamos acertado. Chegando ao hotel, novamente fui afagada pela generosidade de dois atendentes que me ofereceram uma água com gás e se recusaram a receber por isso e lamentaram que àquela hora (uma e meia da madrugada) não tinham mais suco ou outra coisa melhor para oferecer. E no decorrer do dia recebi de braços abertos todas as outras demonstrações de vida humanitária vinda de um grupo que, muitos chafurdados num lamaçal de soberba, protocolos ultrapassados e etiquetas tão boçais, tratam como invisíveis.

Não cumprimentar o porteiro; não agradecer uma camareira, não responder- sim, por favor; não, obrigada; negar agradecimento por algum serviço prestado; nos torna melhores ou superiores a quem?

O meu olhar constrói e desconstrói o feio e o bonito.



“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas, sei de diversas harmonias possíveis, antes do juízo final”.

Simone Fernandes.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Quando o arco íris encontrou o pote de ouro e outras jóias


O tempo cinza teve que se render ao brilho desse momento
O relógio universal se debruçou ao nosso favor
A vida abraçou o sonho e juntos, dançaram devagar
Os Dons Quixotes enfrentaram seus moinhos de ventos
E como arco íris que encontra o pote de ouro, aconteceu
O encontro gerou encontros agregados no mesmo sentimento
Mãos frias, corações acelerados e gestos quentes, cheios de emoções
E descobrimos que do lado de cá, dentro da alma o dia tem mais que vinte quatro horas
A magia da cidade sorriso nos deixou em estado de graça
Algo em nós denunciava que ali a felicidade tinha pousado suave
Maceió ofereceu seu solo úmido para que a amizade, que era uma semente, florescesse.
Ver Milene, um capítulo especial, a minha valente, abraçá-la e confirmamos o que já sabíamos, nossa amizade é desde sempre e a reafirmação de que ela é e sempre será a minha lagarta listrada;

Cida, zoinho d´água que fez o meu transbordar de carinho;
Wendel e seu sorriso de garoto perdido, o Pan de gestos suaves que me fez ver o menino atrás dos músculos;
Cris e Fábio, suas queridices e outros neologismos que combinem com coisas boas roubaram meu coração;
Giovanna e seu olhar doce, sua força e sua pose de princesa me encantou;
Túlio com seu jeito maravilha, Pedro com sua timidez encantadora e Arthur com seu carisma que não podia faltar num namorado meu;
Neto e seu olhar que disputa com verde do mar;

Dora e sua autenticidade, em gestos, olhares e palavras sempre positivas;
E eles, os maestros dessa canção:
Denise, a borboleta azul que espalha emoção e sorriso no seu voar;
Rodolfo e sua magia que transforma tudo em poesia e canções de amor;
Todos vocês fizeram a alegria por o seu melhor vestido e dançar em nós.

Simone Fernandes.


Ouçam a música!


terça-feira, 10 de julho de 2012

Garotos!


Homens são tão meninos. Cheguei a essa conclusão, assistindo a pelada de terça feira de um grupo de amigos meus. Foi tão bonitinho vê-los levando a sério uma brincadeira de criança. O jeito moleque daqueles homens gritando, caindo, se ralando, vibrando com um gol. E depois, suados, conversando eufóricos, dando gargalhadas e sacaneando uns aos outros. Eu fiquei horas olhando essa cena. Estavam ali chefes de família, empresários, militares, professores que naquela hora, eram apenas meninos querendo se divertir. A molecagem daquele momento me fez sorrir jubilosa, porque alguns deles são meus amigos de infância, e eu pude ver, naquele instante, os garotos de quinze, vinte anos atrás. E nós, as mulheres, sentadas, falávamos da vida, filhos, emprego, amores e desamores. Éramos como velhas senhoras, diante daqueles garotos. Como na história de Peter Pan, onde meninas são chatas e a Wendy decepciona a todos, crescendo. Tive vontade de ser menino, como eles.

Voltando para casa na companhia de um dos garotos perdidos, comentei o que eu senti. Então, ele me perguntou, ainda no tom da magia dos jogos de terças: - Por que vocês não experimentam se divertir assim? Eu respondi: - Porque somos meninas, ora! E ele dividindo a atenção entre o trânsito e eu, com cabelo grudado na testa suada, deu um sorriso debochado e disse: Meninas são chatas! – Me olhou de rabo de olho e retrucou: E você, Wendy, por que cresceu? Eu não respondi, apenas sorri, e num suspiro pensei: Ai, como os meninos são bonitinhos!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Desaventurança


IV
O dia estava nublado, um tom de chumbo cobria todo o céu, ela olhava para o alto como se tentasse lembrar algo que lhe pudesse dar alguma esperança. Nada era capaz de ativar suas recordações e um misto de temor e contentamento tomou conta do seu corpo ressequido e fraco. Trazia junto a si uma espécie de aljava e uma foice. E não se intimidou ao encarar a montanha que haveria de escalar, apenas, suspirou como um choro engasgado, contido e prosseguiu até chegar ao cume daquele derradeiro desafio.
A montanha era coberta de uma terra preta e fofa fazendo com que os passos daquela dura caminhada fossem menos dolorosos. Como se a natureza ofertasse sua parte no sacrifício. O céu, nesse momento, parecia mais perto e os olhos que já não sabiam mais chorar, derramaram uma lágrima que saiu quase como um grito e rolou pelo seu rosto até chegar ao solo. Com determinação segurou a foice e deu o primeiro golpe forte e sem remorsos. Toda montanha parecia gritar de dor e veio o segundo golpe, e assim, conseguira ferir a terra. Em silencio e com semblante decaído retirou da aljava algumas sementes que brilhavam como o sol e as enterrou ali. E nesse momento, seus sonhos saltaram, estavam todos eles bem na sua frente. Suas lembranças vieram como um relâmpago e explodiram em seu peito. Paulina, sentiu-se vazia de si mesma.
Simone Fernandes

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Doce revolta

Minha mãe tá revoltada, tá?
 Ela tá revoltada com a saúde no Rio e no Brasil
 Ela tá aqui, no meio da sala
 e tá revoltada com a política de morte e pobreza
Minha mãe com seus olhos verdes claros
que agora estão escuros porque ela tá revoltada
com o descaso das pessoas, com a falta de empatia
Minha mãe falou, no meio da sala, que anda muito revoltada
com a feiura desses dias...
Minha mãe tá aqui, na minha frente, de um jeito que não dá para crer
Eu a olhei com paciência e ternura
E ela se acalmou com a nova programação da TV.

Simone Fernandes.



sexta-feira, 22 de junho de 2012

DESAVENTURANÇAS



VII

Uma vez, enquanto voava, Paulina encontrou-se com uma espécie encantadora, era meio pássaro, meio gente, meio menino, meio homem e seu sorriso era como o pote de ouro no fim do arco íris.

Voaram juntos pelo cair da tarde que parecia não ter fim. Como se gotas de anoitecer pingassem bem devagar, enquanto bailavam pelo céu que gotejava nuances de paixão. Não havia palavra, nem promessas entre eles, apenas olhares e toques. Como um eclipse raro, um fenômeno natural, uma briga de amor, ou, as pazes. Pareciam saber que tudo poderia durar um instante ou a vida inteira. Desafiavam-se e se rendiam sem reservas e sem pudor.

Mas, ela percebeu que a magnífica criatura trazia marcas e um peso noolhar, como um animal enjaulado que fugira, mas tinha medo de se perder. Como um pássaro viciado que precisava voltar a ser infeliz e seguro. Foi então que notou – o ser mais livre e encantador que conhecera, parecia ser mais aprisionado que ela. E como uma cortina velha e pesada, a noite desabou entre eles.

Simone Fernandes